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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Brasil terá nova base na Antártida


Marinha e Instituto dos Arquitetos do Brasil anunciam concurso para a reconstrução da Estação Antártica Comandante Ferraz, incendiada há um ano

Publicado em 23/01/2013, às 07h29

Mona Lisa Dourado

“Os prejuízos foram da irreparável perda de duas vidas humanas a toda uma memória que se transformou em cinzas. É muito triste chegar lá, lembrar de como a base era ativa e ver que boa parte dela virou escombros.” A impressão do capitão de mar e guerra Marcelo Seabra, que conversou com a reportagem do Jornal do Commercio em Punta Arenas (Chile), sintetiza o sentimento de quem voltou à Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) neste verão. Quase um ano depois do incêndio que destruiu 70% da estrutura da base brasileira no continente gelado e matou dois militares, aos poucos, o cenário desolador começa a abrir espaço para o esboço de uma nova residência do País na Antártida. A Marinha e o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) lançaram ontem, no Rio de Janeiro, um concurso para selecionar o projeto arquitetônico das novas instalações da base. Uma “casa” que deve se apoiar sobre três pilares: segurança, conforto e sustentabilidade.

Os detalhes técnicos da licitação serão publicados no Diário Oficial na próxima segunda-feira (28). A partir daí, arquitetos brasileiros ou estrangeiros associados a escritórios do País terão até o dia 14 de março para inscrever suas propostas no sitewww.concursoestacaoantartica.iab.org.br. “A ideia é fazer da estação uma referência, principalmente em relação aos aspectos de inovação tecnológica”, diz o presidente do IAB, Sérgio Magalhães. A energia utilizada no funcionamento da base, por exemplo, deve vir de fontes renováveis. A data de anúncio do resultado da seleção ainda não foi divulgada, mas não deve demorar. É que a reconstrução começa em novembro, com conclusão prevista para fevereiro de 2015. Baseada em experiências de outros países com mais tradição no ambiente polar, a coordenadora para Mar e Antártica do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Janice Trotte Duhá, acredita que o processo, na verdade, pode se estender até 2019. “O Canadá está construindo uma estação no Ártico, cujo cronograma aponta para sete anos de trabalho. Não conseguiria estimar um período inferior a esse para o caso brasileiro”, explica.
Até lá, as pesquisas científicas – principal razão da presença do Brasil na Antártida – se desenvolverão em paralelo às obras. A maioria das atividades ocorre durante as chamadas Operações Antárticas (Operantar) realizadas nos meses de verão, de outubro a março, quando a temperatura chega até 5ºC e os ventos são mais amenos. No inverno, de abril a setembro, as condições climáticas severas (até -25°) inviabilizam as saídas de campo. Hoje, o País desenvolve 19 projetos na Antártida, além de manter dois Institutos Nacionais de Ciência e Tecnologia dedicados aos estudos no continente: o Antártico de Preservação Ambiental (INCT-APA) e o da Criosfera (INCT da Criosfera). 
Cerca de 70% das investigações não sofreram interrupções e já retomaram suas atividades em navios da Marinha, nos dois refúgios (mini-estações) localizados nas Ilhas Elefante e Nelson, na Base Antártica Câmara, cedida pela Argentina na Ilha Livingston, e no Criosfera 1, ponto avançado próximo ao Polo Sul, dentro do continente antártico. “O percentual de prejuízo decorrente do incêndio foi inferior a 10%, porque muitos dados já haviam sido enviados para computadores e laboratórios no País”, diz Janice Duhá. Segundo a coordenadora do INCT-APA, Yocie Yoneshigue, os projetos mais afetados foram os de biociências, que se utilizam de uma expressiva quantidade de coleta de materiais.
ESTAÇÃO PROVISÓRIA
Tanto esses quanto os demais estudos que dependem da base deverão ser tocados a partir da próxima temporada 2013-2014 na própria área da Estação Comandante Ferraz, localizada na baía do Almirantado, na Ilha Rei George (ver mapa). Lá, estão sendo montados 29 módulos emergenciais, pouco menos da metade dos 63 que a EACF possuía antes. Instalada pela empresa Weatherhaven Canada Resources, a estrutura provisória terá capacidade de acomodar cerca de 60 pessoas, contando com dormitórios, banheiros, refeitórios, cozinha, laboratórios, enfermaria e geradores, além de estações de tratamento de esgoto e área de armazenamento de resíduos. “Serão empregadas as mais novas tecnologias resistentes ao fogo e dentro dos padrões de segurança para a operação na Antártida”, destaca o contra-almirante José Roberto Bueno Junior, diretor do Centro de Comunicação Social da Marinha.
Também estarão disponíveis as estruturas isoladas do prédio principal da EACF que permaneceram intactas após o incêndio. Caso dos refúgios de emergência, dos laboratórios de meteorologia, química e estudo da alta atmosfera, da Estação Rádio de Emergência e do heliponto. Escaparam ainda do fogo tanques de combustíveis e dois módulos de captação de água doce. Durante o inverno, 15 militares do Grupo Base da Marinha, responsáveis pela manutenção da estação e apoio às pesquisas, já permanecerão na Antártida ocupando os módulos, à espera dos cientistas no próximo verão.
A preparação do terreno da nova base envolve 76 pessoas, entre civis e militares, que trabalham no desmonte da EACF. Iniciada em novembro, a remoção da parte incendiada foi concluída no último dia 12, informa Bueno Junior, com a retirada de 800 toneladas de destroços, que voltarão ao País no mês de abril. De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), todo o trabalho segue as normas estabelecidas em tratados internacionais. “As diretrizes para a elaboração do plano de desmonte pautaram-se no princípio da precaução, considerando que todos os materiais removidos podem estar contaminados, o que sugere tratá-los como perigosos”, afirma a analista Jaqueline Madruga. A próxima etapa será a limpeza da área.
Para erguer uma estação no “estado da arte”, a verba prevista é de R$ 100 milhões. Na avaliação da comunidade científica, se for acompanhada de um aumento dos recursos para pesquisa, a nova base elevará a um patamar de vanguarda o Programa Antártico Brasileiro, que completou 31 anos este mês.

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Jefferson Simões (E) e Heitor Evangelista festejam instalação do Criosfera 1 em janeiro de 2011
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Gigantes dos mares garantem pesquisas brasileiras na Antártida


Navios Almirante Maximiano e Ary Rongel dão suporte a investigações científicas em áreas como oceanografia, hidrografia, geologia, biologia marinha e geofísica

Publicado em 23/01/2013, às 07h40

Mona Lisa Dourado

PUNTA ARENAS (Chile) – Dois gigantes dos mares garantem a continuidade das pesquisas brasileiras na atual Operação Antártica (Operantar 31). O Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel (H-44) e o Navio Polar Almirante Maximiano (H-41) viabilizam as investigações científicas no continente branco em áreas como oceanografia, hidrografia, geologia, biologia marinha e geofísica. Incorporado à Marinha em abril de 1994 para substituir o antigo Barão de Teffé, o Ary Rongel atua na retaguarda das equipes que trabalham no desmonte e limpeza da EACF, além de alguns projetos científicos. Já o mais jovem e moderno “Max”, como é conhecido, opera desde fevereiro de 2009 em atividades operacionais voltadas à pesquisa. “Com o apoio das embarcações, vamos atender plenamente a todas as solicitações da comunidade científica nesta temporada. Cerca de 200 pesquisadores subirão a bordo”, contabiliza a coordenadora para Mar e Antártica do MCTI, Janice Trotte Duhá.
A grande vantagem dos navios é a mobilidade. “Recebemos, deixamos e buscamos pesquisadores em diversas partes na mesma operação, chegando a lugares isolados que de outra maneira não seria possível”, explica o comandante do Max, Newton Pinto Homem. “Este ano a atividade está muito intensa. Já iniciamos oito projetos”, acrescenta.
Quando a reportagem do visitou a embarcação no porto de Punta Arenas (Chile), às vésperas do retorno do navio à Antártida após o recesso de fim de ano, uma nova leva de cientistas começava a se instalar. Entre eles, a professora Wânia Duleba, ligada ao Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. A cientista estuda emanações de hidratos de gás metano na região da Ilha Marambio (Mar de Weddel), fenômeno que pode ter relação com as mudanças climáticas atuais. Só a demanda dessa pesquisadora dá uma ideia da complexidade da logística articulada a partir dos navios. “Para chegar à área da coleta, preciso de um bote, um mergulhador e dois marinheiros, além de uma série de equipamentos, como ecobatímetros e sensores de temperatura, salinidade e pressão”, descreve.
Segundo Pinto Homem, a organização para suprir cada um dos projetos “é como um castelo de cartas”. Ainda mais considerando os humores do clima num lugar onde o tempo vira de mar de almirante para ventos de 120 km/h em poucos minutos. “A partir do momento em que os projetos são designados, recebo um formulário logístico em que são detalhadas as demandas deles. Mas estamos sempre fazendo adaptações, porque a nossa prioridade em campo é a segurança das pessoas. Muitas vezes até temos que negar certos pedidos.”

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Embarcações transportam militares e pesquisadores pelos mares austrais
Marinha do Brasil/Divulgação
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Com capacidade plena, o Almirante Maximiano transporta 106 passageiros, sendo 33 pesquisadores, divididos em camarotes para um a quatro ocupantes, com banheiro interno ou compartilhado. Conforto não é bem o forte de uma navio dedicado ao trabalho científico, mas o arsenal que faz dele um centro de pesquisas flutuante, esse sim chama atenção. São cinco laboratórios, sendo dois secos, dois molhados e um misto. Em geral, cabe a cada projeto equipá-los de acordo com necessidades específicas. Como padrão, há computadores e um super freezer capaz de conservar amostras a 86 graus negativos.
Entre os equipamentos, são disponibilizados um guincho oceanográfico capaz de medir e coletar água a até 8 mil metros de profundidade e outro geológico, que coleta amostra de solo marinho a 10 mil metros. Uma estação meteorológica dispõe de avançados aparelhos de oceanografia, como um monofeixe especial que permite fazer o desenho tridimensional do fundo do mar. Completam o maquinário medidores que traçam o perfil das correntes marinhas e outros que podem penetrar nos sedimentos do fundo do mar através de impulsos sonoros.
O navio de 90 metros de comprimento, e capaz de deslocar 5,5 mil toneladas, também comporta quatro botes infláveis e um hangar climatizado para dois helicópteros. No Ary Rongel, a estrutura é semelhante, só que um pouco mais modesta. Hospeda 94 tripulantes, entre eles 25 pesquisadores, e abriga dois laboratórios. O forte da embarcação é a capacidade de carga de 2.400 metros cúbicos dos dois porões e a presença de guindastes para até 17 toneladas.

LABIRINTO - A circulação em ambos os navios requer algum tempo de adaptação para desvendar o labirinto de corredores e escadas estreitas. Mais cedo ou mais tarde, tripulantes e pesquisadores se encontram em alguma das áreas comuns. A mais concorrida é a Praça D’Armas, que serve de sala de estar, refeitório e área de lazer equipada com TV de 42 polegadas, DVD e videogame. Para não perder a forma com a quantidade de comida calórica que o frio exige, também há academia de ginástica. Ambulatório e consultório odontológico estão a postos para qualquer imprevisto. E, luxo dos luxos, uma lavanderia garante que ninguém vai precisar repetir roupa suja.

A sensação de isolamento é quebrada com um razoável sistema de comunicação, que permite fazer chamadas telefônicas e acessar a internet. Um alívio para os oficiais e tripulantes que passam os seis meses do verão antártico (de abril a setembro) embarcados. “A distância da família é a maior dificuldade, mas na verdade a viagem é como um prêmio dentro da corporação, já que somos escolhidos por mérito”, ressalta o Capitão Jorge Luiz Nascimento de Paula.

Até mesmo os comandantes enxergam a missão na Antártida como um reconhecimento.  “Meu primeiro contato com o continente foi na 30a. Operantar, em 2011-2012. Antes disso, era um sonho distante, que não sabia quando ia realizar. Como a escolha do comandante é baseada no seu passado, foi uma emoção muito forte. Uma honra”, conta Pinto Homem, há 30 anos na Marinha. Para outro veterano dos mares, o Capitão de Mar e Guerra Marcelo Seabra, à frente do Ary Rongel, um dos grandes desafios é navegar com neve, gelo, baixa visibilidade, tudo ao mesmo tempo, condições muito distintas das encontradas na costa do Brasil. “Mas o contato com os pesquisadores e a importância de representar o País num trabalho reconhecido mundialmente compensa tudo”, destaca o comandante, que diz já estar em “processo de desapego”. Isso porque os comandos do Ary Rongel e do Almirante Maximiano são substituídos a cada dois anos.

OPERANTAR 31 - A Marinha utiliza ainda três outras embarcações na operação deste ano. O Navio de Socorro Submarino Felinto Perry, o Navio Mercante Germânia, fretado pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, e o Navio de Transporte de Pessoal e Carga ARA Bahia San Blas, cedido pela Armada Argentina. Contando ainda com dez voos das aeronaves C-130 – Hércules, da Força Aérea Brasileira, a Operantar 31 já é considerada a maior e mais complexa missão realizada pelo País na Antártida. Dimensão possibilitada pelo orçamento inédito de R$ 58 milhões, contra R$ 8,72 milhões em 2011.