O pesquisador Anderson Diego (o editor deste blog) acaba de publicar um novo artigo internacional que propõe uma leitura crítica sobre os discursos de inovação nas cidades contemporâneas. O estudo, intitulado “Innovation as a Floating Signifier in Urban Governance: Discursive Struggles in Montreal’s Quartier des Spectacles”, foi publicado na revista científica Australian Academy of Business Research, volume 4, edição 1 de 2026.
Inovação além da tecnologia
O artigo parte de uma provocação central:
👉 E se “inovação” não for um conceito neutro?
Ao invés de tratar inovação apenas como avanço tecnológico ou crescimento econômico, o estudo propõe compreender o termo como um “significante flutuante”, conceito inspirado na teoria do discurso de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe.
Segundo o autor, inovação funciona como uma ideia aberta, capaz de reunir diferentes interesses políticos, econômicos e culturais sob uma narrativa aparentemente consensual.
No contexto urbano, isso significa que conceitos como:
- criatividade,
- revitalização,
- inclusão,
- tecnologia,
- competitividade,
- cultura,
- sustentabilidade,
passam a ser articulados em torno do discurso da inovação.
O caso do Quartier des Spectacles em Montreal
A pesquisa analisa o Quartier des Spectacles, principal distrito cultural de Montreal e um dos maiores projetos de revitalização cultural da América do Norte.
O bairro tornou-se símbolo da estratégia de “cidade criativa” adotada por Montreal nas últimas décadas, reunindo:
- festivais internacionais,
- espaços culturais,
- intervenções urbanas,
- iluminação pública interativa,
- equipamentos artísticos,
- e políticas de inovação cultural.
De acordo com o artigo, o Quartier des Spectacles não é apenas um espaço físico, mas também um projeto simbólico que ajuda a construir a imagem de Montreal como cidade inovadora, criativa e global.
Discurso, poder e governança urbana
O estudo utiliza uma abordagem pós-estruturalista baseada na teoria do discurso para analisar documentos oficiais, planos estratégicos e políticas públicas relacionadas ao distrito cultural.
A pesquisa mostra que o discurso da inovação:
- legitima políticas urbanas,
- organiza prioridades econômicas,
- redefine práticas culturais,
- e influencia formas de participação urbana.
Ao mesmo tempo, o artigo destaca que essas narrativas também produzem exclusões.
Entre as tensões identificadas estão:
- gentrificação cultural,
- valorização imobiliária,
- mercantilização da cultura,
- exclusão de práticas culturais não alinhadas ao mercado,
- e formas seletivas de participação urbana.
As três lógicas da inovação
Inspirado em Jason Glynos e David Howarth, o estudo mobiliza três dimensões analíticas:
🔹 Lógicas sociais
Explicam como a inovação se torna algo naturalizado e tratado como “senso comum” nas políticas urbanas.
🔹 Lógicas políticas
Mostram os conflitos e disputas em torno de quem pode participar da cidade criativa.
🔹 Lógicas fantasmáticas
Analisam como a inovação cria promessas afetivas de futuro, pertencimento e progresso urbano.
Segundo o autor, essas dimensões ajudam a compreender por que o discurso da inovação permanece tão forte mesmo diante de desigualdades e críticas sociais.
Imaginação urbana e futuro das cidades
O artigo também dialoga com autores como Cornelius Castoriadis, Arjun Appadurai e Michel Foucault para discutir como as cidades produzem “imaginários urbanos”.
Nesse contexto, inovação deixa de ser apenas política pública e passa a funcionar como:
- narrativa de futuro,
- tecnologia de governança,
- mecanismo de regulação cultural,
- e instrumento de produção simbólica das cidades contemporâneas.
Contribuições da pesquisa
O estudo contribui para debates internacionais sobre:
- cidades criativas,
- governança urbana,
- economia criativa,
- políticas culturais,
- participação cidadã,
- e análise crítica da inovação.
Além disso, a pesquisa reforça a importância de abordagens críticas sobre os modelos de desenvolvimento urbano contemporâneo, especialmente em projetos baseados em criatividade e inovação.
Sobre o autor
Anderson Diego desenvolve pesquisas nas áreas de:
- inovação,
- cultura,
- análise do discurso,
- governança urbana,
- economia criativa,
- e transformações urbanas.
Seu trabalho de doutorado na Université de Montréal investiga os conflitos discursivos e os imaginários urbanos associados à inovação no contexto do Quartier des Spectacles.


