quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Gigantes dos mares garantem pesquisas brasileiras na Antártida


Navios Almirante Maximiano e Ary Rongel dão suporte a investigações científicas em áreas como oceanografia, hidrografia, geologia, biologia marinha e geofísica

Publicado em 23/01/2013, às 07h40

Mona Lisa Dourado

PUNTA ARENAS (Chile) – Dois gigantes dos mares garantem a continuidade das pesquisas brasileiras na atual Operação Antártica (Operantar 31). O Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel (H-44) e o Navio Polar Almirante Maximiano (H-41) viabilizam as investigações científicas no continente branco em áreas como oceanografia, hidrografia, geologia, biologia marinha e geofísica. Incorporado à Marinha em abril de 1994 para substituir o antigo Barão de Teffé, o Ary Rongel atua na retaguarda das equipes que trabalham no desmonte e limpeza da EACF, além de alguns projetos científicos. Já o mais jovem e moderno “Max”, como é conhecido, opera desde fevereiro de 2009 em atividades operacionais voltadas à pesquisa. “Com o apoio das embarcações, vamos atender plenamente a todas as solicitações da comunidade científica nesta temporada. Cerca de 200 pesquisadores subirão a bordo”, contabiliza a coordenadora para Mar e Antártica do MCTI, Janice Trotte Duhá.
A grande vantagem dos navios é a mobilidade. “Recebemos, deixamos e buscamos pesquisadores em diversas partes na mesma operação, chegando a lugares isolados que de outra maneira não seria possível”, explica o comandante do Max, Newton Pinto Homem. “Este ano a atividade está muito intensa. Já iniciamos oito projetos”, acrescenta.
Quando a reportagem do visitou a embarcação no porto de Punta Arenas (Chile), às vésperas do retorno do navio à Antártida após o recesso de fim de ano, uma nova leva de cientistas começava a se instalar. Entre eles, a professora Wânia Duleba, ligada ao Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo. A cientista estuda emanações de hidratos de gás metano na região da Ilha Marambio (Mar de Weddel), fenômeno que pode ter relação com as mudanças climáticas atuais. Só a demanda dessa pesquisadora dá uma ideia da complexidade da logística articulada a partir dos navios. “Para chegar à área da coleta, preciso de um bote, um mergulhador e dois marinheiros, além de uma série de equipamentos, como ecobatímetros e sensores de temperatura, salinidade e pressão”, descreve.
Segundo Pinto Homem, a organização para suprir cada um dos projetos “é como um castelo de cartas”. Ainda mais considerando os humores do clima num lugar onde o tempo vira de mar de almirante para ventos de 120 km/h em poucos minutos. “A partir do momento em que os projetos são designados, recebo um formulário logístico em que são detalhadas as demandas deles. Mas estamos sempre fazendo adaptações, porque a nossa prioridade em campo é a segurança das pessoas. Muitas vezes até temos que negar certos pedidos.”

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Embarcações transportam militares e pesquisadores pelos mares austrais
Marinha do Brasil/Divulgação
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Com capacidade plena, o Almirante Maximiano transporta 106 passageiros, sendo 33 pesquisadores, divididos em camarotes para um a quatro ocupantes, com banheiro interno ou compartilhado. Conforto não é bem o forte de uma navio dedicado ao trabalho científico, mas o arsenal que faz dele um centro de pesquisas flutuante, esse sim chama atenção. São cinco laboratórios, sendo dois secos, dois molhados e um misto. Em geral, cabe a cada projeto equipá-los de acordo com necessidades específicas. Como padrão, há computadores e um super freezer capaz de conservar amostras a 86 graus negativos.
Entre os equipamentos, são disponibilizados um guincho oceanográfico capaz de medir e coletar água a até 8 mil metros de profundidade e outro geológico, que coleta amostra de solo marinho a 10 mil metros. Uma estação meteorológica dispõe de avançados aparelhos de oceanografia, como um monofeixe especial que permite fazer o desenho tridimensional do fundo do mar. Completam o maquinário medidores que traçam o perfil das correntes marinhas e outros que podem penetrar nos sedimentos do fundo do mar através de impulsos sonoros.
O navio de 90 metros de comprimento, e capaz de deslocar 5,5 mil toneladas, também comporta quatro botes infláveis e um hangar climatizado para dois helicópteros. No Ary Rongel, a estrutura é semelhante, só que um pouco mais modesta. Hospeda 94 tripulantes, entre eles 25 pesquisadores, e abriga dois laboratórios. O forte da embarcação é a capacidade de carga de 2.400 metros cúbicos dos dois porões e a presença de guindastes para até 17 toneladas.

LABIRINTO - A circulação em ambos os navios requer algum tempo de adaptação para desvendar o labirinto de corredores e escadas estreitas. Mais cedo ou mais tarde, tripulantes e pesquisadores se encontram em alguma das áreas comuns. A mais concorrida é a Praça D’Armas, que serve de sala de estar, refeitório e área de lazer equipada com TV de 42 polegadas, DVD e videogame. Para não perder a forma com a quantidade de comida calórica que o frio exige, também há academia de ginástica. Ambulatório e consultório odontológico estão a postos para qualquer imprevisto. E, luxo dos luxos, uma lavanderia garante que ninguém vai precisar repetir roupa suja.

A sensação de isolamento é quebrada com um razoável sistema de comunicação, que permite fazer chamadas telefônicas e acessar a internet. Um alívio para os oficiais e tripulantes que passam os seis meses do verão antártico (de abril a setembro) embarcados. “A distância da família é a maior dificuldade, mas na verdade a viagem é como um prêmio dentro da corporação, já que somos escolhidos por mérito”, ressalta o Capitão Jorge Luiz Nascimento de Paula.

Até mesmo os comandantes enxergam a missão na Antártida como um reconhecimento.  “Meu primeiro contato com o continente foi na 30a. Operantar, em 2011-2012. Antes disso, era um sonho distante, que não sabia quando ia realizar. Como a escolha do comandante é baseada no seu passado, foi uma emoção muito forte. Uma honra”, conta Pinto Homem, há 30 anos na Marinha. Para outro veterano dos mares, o Capitão de Mar e Guerra Marcelo Seabra, à frente do Ary Rongel, um dos grandes desafios é navegar com neve, gelo, baixa visibilidade, tudo ao mesmo tempo, condições muito distintas das encontradas na costa do Brasil. “Mas o contato com os pesquisadores e a importância de representar o País num trabalho reconhecido mundialmente compensa tudo”, destaca o comandante, que diz já estar em “processo de desapego”. Isso porque os comandos do Ary Rongel e do Almirante Maximiano são substituídos a cada dois anos.

OPERANTAR 31 - A Marinha utiliza ainda três outras embarcações na operação deste ano. O Navio de Socorro Submarino Felinto Perry, o Navio Mercante Germânia, fretado pela Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, e o Navio de Transporte de Pessoal e Carga ARA Bahia San Blas, cedido pela Armada Argentina. Contando ainda com dez voos das aeronaves C-130 – Hércules, da Força Aérea Brasileira, a Operantar 31 já é considerada a maior e mais complexa missão realizada pelo País na Antártida. Dimensão possibilitada pelo orçamento inédito de R$ 58 milhões, contra R$ 8,72 milhões em 2011.

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